Agrolink – Leonardo Gottems
A retração do crédito rural em abril de 2026 reforça um ambiente de cautela no campo brasileiro, marcado por juros elevados, menor volume de recursos e adiamento de investimentos. Segundo Claudio Brisolara, estrategista do agronegócio, os dados do Relatório de Acompanhamento Mensal do Crédito Rural do Sistema Faesp/Senar indicam um cenário que preocupa.
Entre julho de 2025 e abril de 2026, o Plano Safra 2025/26 desembolsou R$ 277,9 bilhões, o equivalente a 68,5% dos R$ 405,9 bilhões programados. Na comparação com o mesmo período da safra anterior, houve queda de 11,2% no valor liberado. O ticket médio recuou 14,1%, de R$ 167 mil para R$ 143 mil por contrato, enquanto o número de contratos cresceu 3,5%, concentrado nos segmentos de menor porte.
O desempenho foi sustentado pelo Pronaf, com alta de 2,4%, e pelo Pronamp, com avanço de 1,9%. Já os demais produtores, responsáveis pela maior fatia dos desembolsos, tiveram queda de 17,9% no valor e de 38,3% no número de contratos. Nesse grupo, o ticket médio subiu 33%, sinalizando maior seletividade e concentração em operações maiores.
A maior preocupação está nos programas de investimento, que caíram 18,5% em valor no país. O Moderfrota recuou 54,8% em recursos e 45% em contratos. O Proirriga teve baixa de 56,2%, enquanto Inovagro e Moderagro caíram 37% em valor e 60% em contratos. O movimento indica postergação de decisões sobre tecnologia, irrigação e renovação de frota.
Em São Paulo, os desembolsos somaram R$ 27,2 bilhões, 9,8% do total nacional, com queda de 6,5% no valor e recuo de 15,3% nos contratos. Custeio caiu 14,7% e investimento, 27,7%.
O quadro é agravado por taxas de mercado de 12,03% ao ano para pessoas físicas, inadimplência de 12,69% nessas operações e Selic em 14,5% ao ano. Com câmbio abaixo de R$ 5,00, preços baixos das commodities, custos crescentes e previsão de El Niño severo, o campo prioriza a sobrevivência e reduz o espaço para modernização.

