Agrolink – Aline Merladete
A escassez de trigo disponível mantém o mercado do Sul do Brasil com baixa liquidez e reduz o ritmo das negociações neste fim de agosto. Com menor oferta de produto de qualidade superior, compradores adotam cautela nas aquisições, enquanto produtores resistem em antecipar vendas da nova safra à espera de melhores condições de preço.
Segundo dados divulgados pela Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário, CEEMA, a menor disponibilidade doméstica, os riscos climáticos e a recuperação das cotações internacionais dão sustentação aos preços. A qualidade do cereal também deve ter peso importante na formação das referências e na liquidez do mercado com a entrada da próxima colheita.
A situação é mais apertada no Rio Grande do Sul. Análise da TF Agroeconômica citada pela CEEMA estima que o estado tenha aproximadamente 100 mil toneladas de trigo disponíveis, enquanto a necessidade dos compradores até a chegada da próxima safra alcança cerca de 300 mil toneladas. A diferença deverá ser atendida por estoques de outras regiões ou por importações.
Mesmo diante da oferta reduzida, compradores e vendedores ainda encontram dificuldade para chegar a um acordo. Algumas operações de maior volume foram realizadas entre R$ 1.500 e R$ 1.550 por tonelada CIF, com entrega nos moinhos. No mercado FOB, os vendedores pedem perto de R$ 1.350 por tonelada, enquanto as indicações de compra chegam a R$ 1.320. Essa diferença entre as referências tem limitado novos negócios.
Do lado das indústrias, a postura também é de cautela. Os moinhos gaúchos avançaram nas contratações e já possuem cobertura para suas necessidades até o fim de setembro. Porém, a baixa moagem, as margens pressionadas e a demanda enfraquecida por farinha dificultam o repasse do custo da matéria-prima, levando parte das empresas a comprar apenas os volumes necessários para manter as operações.
Nesse cenário, o trigo importado passa a ganhar espaço nas contas dos compradores. O cereal estrangeiro chega ao Rio Grande do Sul por aproximadamente R$ 1.540 por tonelada, considerando entrega em moinhos próximos de Porto Alegre. Quando o produto nacional se aproxima ou ultrapassa esse nível, cresce o interesse das indústrias pelas compras no Mercosul.
Em Santa Catarina, a comercialização também segue lenta. O trigo destinado à fabricação de pão é indicado entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada, enquanto foi registrado negócio com trigo branqueador a R$ 1.500 por tonelada FOB. A baixa liquidez resulta tanto do interesse limitado dos compradores quanto da resistência dos vendedores em aceitar referências menores.
No Paraná, a demanda mostrou alguma recuperação com a proximidade do fim do mês, em um movimento de reposição de estoques pelos moinhos antes do reajuste previsto para as farinhas em setembro. O trigo da safra velha gira ao redor de R$ 1.500 por tonelada CIF moinho, enquanto as ofertas para a nova safra começam próximas de R$ 1.450 por tonelada FOB.
Ainda assim, a comercialização antecipada permanece limitada. Muitos produtores preferem acompanhar a evolução das lavouras antes de ampliar as vendas, o que mantém a oferta futura restrita no mercado. A realização de novos negócios dependerá também da qualidade do trigo que chegará da próxima colheita e da capacidade das indústrias de absorver e repassar custos mais elevados.
A preocupação com a disponibilidade ocorre justamente quando o trigo encontra sustentação também no mercado internacional. Em Chicago, o primeiro vencimento fechou o dia 27 de agosto a US$ 7,42 por bushel, maior cotação desde julho de 2023. No Brasil, porém, além do comportamento externo, câmbio, fretes, qualidade do cereal e demanda por farinha continuarão determinando o ritmo das negociações nas próximas semanas.

